Com a liturgia deste terceiro domingo do tempo comum, inicia-se
propriamente a leitura semi-contínua do Evangelho de Mateus, como é próprio do
ano litúrgico A, a qual será interrompida após o sexto domingo, para a vivência
dos tempos da Quaresma e da Páscoa, e retomada somente depois da Solenidade da
Santíssima Trindade, já no décimo domingo. Durante esse intervalo – Quaresma, Páscoa
e solenidades pós-pascais – também serão lidos trechos do Evangelho de Mateus,
mas de modo aleatório, como acontece também nos tempos do Advento e do Natal,
intercalando com os demais evangelhos. No ano de 2019, o Papa Francisco
instituiu o terceiro domingo do tempo comum como o “Domingo da Palavra de
Deus”, com o objetivo de promover uma aproximação maior das pessoas com a
Palavra de Deus, evidenciando sua centralidade na vida da Igreja e ainda
visando despertar o interesse pelo estudo das Sagradas Escrituras. Na Igreja do
Brasil, particularmente, o “Domingo da Palavra de Deus” ainda não foi bem
assimilado como tal, pois já havia o “dia da Bíblia”, celebrado no último
domingo de setembro, o mês da Bíblia, uma tradição bastante consolidada em
nossas comunidades.
O texto lido hoje – Mateus 4,12-23 – marca, de fato, o início do ministério
de Jesus na Galileia, tendo sido profundamente preparado pelos episódios
anteriores: o batismo no Jordão (Mt 3,13-17) e as tentações no deserto (Mt
4,1-11). No contexto litúrgico, o que nos preparou para lermos o evangelho de
hoje foi o testemunho de João, o Batista, apontando Jesus como “o Cordeiro de
Deus que tira o pecado do mundo” e como “o Filho de Deus”, conforme o trecho do
Quarto Evangelho lido na liturgia do domingo passado (Jo 1,29-34). O episódio
das tentações (Mt 4,1-11) será lido somente no primeiro domingo da Quaresma. O
texto de hoje é programático; nele são delineadas as principais linhas de todo
o ministério de Jesus, ficando muito claro quais serão os destinatários
privilegiados da sua missão libertadora e o conteúdo essencial da sua pregação.
Daí, reconheceremos também os objetivos básicos da sua missão: inundar o mundo
do amor misericordioso de Deus. Pela extensão do texto, não conseguiremos
comentar de maneira minuciosa versículo por versículo, mas colheremos a
mensagem central.
Partimos do primeiro versículo, pois além de nos situar no tempo e no
espaço, ele apresenta elementos importantes para a compreensão do restante do
texto, funcionando, inclusive, como verdadeira introdução a todo o
ministério: «Ao saber que João tinha sido preso, Jesus voltou para a
Galileia» (v. 12). A prisão de João se torna um divisor de águas na
vida de Jesus. Além de marco cronológico para o início da sua missão, é também
um sinal de qual será o seu destino, assim como o de praticamente todos os
profetas: a perseguição. Do ponto de vista geográfico, o retorno à Galileia
está relacionado aos episódios do batismo e das tentações, vividos no Jordão e
no deserto, ambos localizados na região da Judeia. Mas significa muito mais do
que isso. Antes de tudo, significa que a missão de Jesus não será uma repetição
da missão de João. Ora, se João pregou na Judeia e Jesus vai para a Galileia
iniciar lá o seu ministério, significa que há descontinuidade entre os dois. O
programa de vida de Jesus é completamente novo, inclusive, será questionado
pelo próprio João, posteriormente (Mt 11,2-6). A Galileia era uma região
periférica, uma terra má afamada, conhecida pela pouca ortodoxia do seu povo.
Logo, o início da missão de Jesus nessa região indica que os primeiros destinatários
da sua mensagem são as pessoas excluídas e marginalizadas, gente sem boa
reputação.
Mesmo ciente da novidade que Jesus inaugura, assim como fez no “evangelho
da infância” (Mt 1–2), o evangelista apresenta a sua missão, desde o início,
como cumprimento das profecias, por necessidade da sua comunidade,
profundamente ligada às tradições do Antigo Testamento. Por isso, ele explica o
início na Galileia à luz das Escrituras: «Deixou Nazaré e foi morar em
Cafarnaum, que fica às margens do mar da Galileia, no território de Zabulon e
Neftali, para se cumprir o que foi dito pelo profeta Isaías» (v.
13-14). A mudança de Nazaré para Cafarnaum é estratégica. Nazaré era apenas um
pequeno povoado, o que na linguagem bíblica representa fechamento de
mentalidade, conservadorismo exagerado e apego às tradições. Com uma mensagem
tão libertadora como a sua, dificilmente Jesus seria aceito e compreendido lá,
como atesta, inclusive, o evangelista Lucas, ao dizer que após a primeira
pregação de Jesus em Nazaré já quiseram matá-lo (Lc 4,16-30). Cafarnaum, por
sua vez, cujo nome significa “aldeia da consolação”, era uma cidade média e um
importante entreposto comercial. Localizada às margens do lago de Genesaré, o
que Marcos e Mateus chamam de mar da Galileia, provavelmente por questões
teológicas, era um centro de circulação de pessoas, de mercadorias e de ideias.
Por lá passavam importantes rotas comerciais. Isso facilitava também os
constantes deslocamentos de Jesus para pregar em outros lugares. Logo, pessoas
de diversas proveniências passavam constantemente por Cafarnaum. Num cenário
assim, a Boa Nova de Jesus circularia melhor, o que não significa que tenha
havido uma acolhida unânime. É interessante recordar que, embora todos os
evangelistas apresentem Cafarnaum como um dos cenários da atuação de Jesus,
somente Mateus diz que ele fixou morada lá. Trata-se de um dado muito relevante
para a compreensão do seu ministério.
Como a comunidade de Mateus era fortemente influenciada pelo judaísmo, ele
foi buscar no profeta Isaías (Is 8,23 – 9,1) uma passagem que justificasse essa
opção tão revolucionária de Jesus: «Terra de Zabulon, terra de Neftali,
caminho do mar, região do outro lado do rio Jordão, Galileia dos pagãos! O povo
que vivia nas trevas viu uma grande luz» (vv. 15-16). Zabulon e
Neftali foram as primeiras tribos invadidas pelos assírios no séc. VIII a.C.,
onde começou a miscigenação da população, fazendo a Galileia toda ser chamada
de “Galileia dos pagãos”, pejorativamente. Ora, tanto o exército da Assíria
deportou parte da população local, quanto levou povos estrangeiros para habitar
na Galileia, fazendo nascer um grande sincretismo cultural e religioso, além de
tornar seu povo miscigenado. Isso levou a população de Jerusalém e de toda a
Judeia a criar um preconceito histórico contra os galileus, tratando-os como
gente inferior, pessoas praticamente excluídas da salvação. No entanto, foram
as pessoas dessa região que Deus escolheu para conhecerem primeiro a sua luz
que brilha em Jesus. Isso é um fato bastante revolucionário: A grande luz de
Deus não foi acesa para os judeus considerados puros, frequentadores assíduos
do Templo de Jerusalém, mas para um povo desprezado, para as vítimas de preconceitos
e exclusão, gente considerada impura. Inclusive, quem primeiro reconheceu Jesus
como fonte de luz foram os magos estrangeiros, representantes de práticas
religiosas condenadas em Israel (Mt 2,1-12). O começo do ministério de Jesus na
Galileia significa, portanto, a sua identificação com os marginalizados em
geral.
Tendo apresentado o cenário e os destinatários primeiros do ministério de
Jesus, o evangelista apresenta a sua mensagem, ou seja, o conteúdo da sua
pregação: «Daí em diante Jesus começou a pregar dizendo:
“Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo”» (v. 17). A
expressão “começou a pregar” só aparece duas vezes no Evangelho de Mateus:
aqui, e em 16,21, quando Jesus vai anunciar a sua paixão, pela primeira vez,
aos seus discípulos. Cada uma das ocorrências mostra o início de uma etapa no
seu ministério, sendo que, nessa primeira ocorrência, indica o princípio geral,
por isso, é marcado pelo anúncio do Reino. Na segunda vez, a pregação vai
apontar as consequências da adesão ao Reino: a paixão – quer dizer, a cruz. O
chamado à conversão e o anúncio do Reino são o centro da mensagem de Jesus.
Mateus chama de “Reino dos Céus” a mesma realidade que os demais evangelistas
chamam de “Reino de Deus”. Provavelmente, ele evita usar aqui o nome de Deus
para não ferir a sensibilidade dos judeus, tão enraizada na sua comunidade.
Esse Reino é uma sociedade alternativa, um mundo novo, é o sonho de Deus para a
humanidade. Ele é dos céus porque foi todo pensado por Deus, mas seu destino é
a terra, é a história humana, necessitada de humanização. Não se trata,
portanto, de uma vida futura, mas é viver a vida presente conforme o projeto de
Jesus. O Reino dos Céus é, portanto, um projeto de mundo e sociedade onde haja
igualdade, fraternidade, amor, concórdia, solidariedade e paz; é um mundo sem
preconceitos e nem exclusões, plenamente humanizado pelo amor misericordioso de
Deus, fonte de vida em plenitude.
A instauração desse Reino na terra é tão urgente e necessária que, um pouco
mais adiante, o próprio Jesus ensinará os discípulos a pedirem ao Pai, em
oração, que faça vir o Reino (Mt 6,10), ao ensiná-los a rezar o Pai nosso. Toda
a práxis de Jesus é manifestação desse Reino, porque ele mesmo é o Reino em
pessoa. Por isso, ele diz que o Reino está próximo, pois ele está presente no
mundo e está prestes a iniciar a sua missão libertadora, marcada pela prática
do bem. E a sua práxis deve ser continuada pelos seus discípulos de todos os
tempos. Para abraçar um projeto como esse é necessária uma mentalidade nova.
Por isso, o anúncio do Reino é precedido do imperativo “convertei-vos” (em
grego: μετανοεῖτε – metanoeite).
Conversão significa uma mudança radical de mentalidade, e não uma simples
intensidade nas práticas religiosas e devocionais; é olhar o mundo de maneira
nova e adotar um novo estilo de vida. E a lógica do Reino exige isso. Obviamente,
o estilo de vida exigido como fruto da conversão é o estilo de Jesus, marcado
pela intensidade do amor que liberta, inclui, humaniza e, por isso, salva.
A instauração do Reino é tão urgente, que Jesus chama logo seus primeiros
quatro colaboradores, duas duplas de irmãos, cujos chamados se tornam paradigma
vocacional válido para todos os tempos. Eis o relato dos dois primeiros: «Quando
Jesus andava à beira do mar da Galileia, viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro,
e seu irmão André. Estavam lançando a rede ao mar, pois eram pescadores. Jesus
disse a eles: “Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens”. Eles
imediatamente deixaram as redes e o seguiram» (vv. 18-20). O cenário
do chamado dos primeiros discípulos é o mar, embora se tratasse de um grande
lago, apenas. O evangelista chama de mar por razões teológicas. Para a
mentalidade bíblica, o mar era a morada do mal, sinônimo de perigo e morte.
Propositalmente, é nesse ambiente que Jesus escolhe as primeiras pessoas para o
seu seguimento: os irmãos Simão Pedro e André. Ele não vai a um ambiente
cultual recrutar devotos, mas vai onde há gente sem reputação e sinais de
perigo e morte. Embora não vivessem mal economicamente, pois a pesca era uma
atividade rentável, os pescadores não gozavam de nenhum prestígio social, pois
o contato com o mar tornava a atividade deles depreciativa, embora não fossem considerados
impuros, como eram tratados os profissionais de outras atividades, como os
curtidores e os pastores, por exemplo.
Como se vê, o chamado de Jesus acontece no cotidiano: os pescadores são
chamados enquanto lançam as redes ao mar. Isso serve para ilustrar a
necessidade de adotar um novo estilo de vida para seguir Jesus e,
consequentemente, inserir-se no Reino. O deixar as redes imediatamente para
seguir Jesus (v. 20) significa exatamente a passagem de um estilo de vida para
outro. O convite a ser “pescadores de homens” (v. 19) deve ser bem esclarecido,
pois é muito fácil de ser deturpado, como tem sido intensamente, sobretudo nos tempos
atuais. Ora, muitas vezes, usa-se essa expressão para justificar proselitismos
e até imposição de crenças, o que não combina com o projeto de Jesus. Como
afirmamos anteriormente, o mar tem um sentido muito negativo para o mundo
bíblico; é sinônimo de perigo, pois evoca o domínio do mal. Ser “pescador de
homens” (de gente!), portanto, é ser sinal de vida, e assim é a missão dos
seguidores de Jesus em todos os tempos: tirar homens e mulheres de condições
desumanas; é restituir a dignidade às pessoas, combatendo todos dos tipos de
mal que assolam o mundo, como a violência, a corrupção, a fome e as injustiças
em geral. O seguimento de Jesus exige o comprometimento com essa causa.
Na continuidade, o evangelista apresenta o chamado de mais uma dupla de
irmãos: «Caminhando um pouco mais, Jesus viu outros dois irmãos: Tiago,
filho de Zebedeu e seu irmão João. Estavam na barca com seu pai Zebedeu
consertando as redes. Jesus os chamou. Eles imediatamente deixaram a barca e o
pai, e o seguiram» (vv. 21-22). O cenário continua o mesmo, mas temos
algumas novidades, principalmente nas renúncias. Enquanto Simão Pedro e André
deixaram apenas as redes, o evangelista diz que Tiago e João deixaram a barca e
o pai. Há, portanto, um crescendo nas exigências. O primeiro chamado
enfatiza o rompimento com a ordem socioeconômica, representada pelas redes (v.
20), enquanto o segundo destaca a ruptura com a estabilidade, representada pela
barca, e o mundo cultural e religioso, simbolizado pelo pai, o chefe de família
e detentor de autoridade na sociedade patriarcal. Com isso, o evangelista quer
dizer que a relação com Jesus deve ter precedência sobre todas as instâncias da
vida. Também é um sinal de que, ao longo da história, as exigências para o
seguimento de Jesus tendem a aumentar cada vez mais, conforme os sinais dos
tempos. Por isso, o chamado dos primeiros discípulos não é propriamente uma
crônica, mas uma parábola de todo chamado vocacional, da atenção de Jesus a
cada pessoa, mediante o seu olhar. E a resposta dos primeiros discípulos é
paradigma de toda resposta e acolhida ao olhar interpelante de Jesus. Nos dois
chamados, o evangelista recorda que, antes de tudo, Jesus viu os pescadores. De
fato, ele vê cada pessoa em sua inteireza, ou seja, de modo profundo, contemplando
cada um como obra prima do seu Pai.
Na conclusão, o evangelista apresenta um primeiro resumo da missão de
Jesus, recordando o caráter itinerante e libertador do seu ministério: «Jesus
andava por toda a Galileia, ensinando em suas sinagogas, pregando o Evangelho
do Reino e curando todo tipo de doença e enfermidade do povo» (v. 23).
Como se vê, é uma atividade dinâmica, própria de quem não vive acomodado, mas
vai ao encontro das pessoas, onde há necessidade real. Andar por toda a Galileia
indica a intensidade do agir libertador de Jesus, apontando para a inclusão e a
fertilidade da misericórdia que ele veio espalhar no mundo. Esse dado antecipa
a missão universal que, já Ressuscitado, ele vai conferir aos discípulos, no
final do Evangelho: «Ide, portanto, por todas as nações… ensinando-lhes tudo
o que vos tenho ordenado…» (Mt 28,19-20). A missão na Galileia é o ponto de partida para a missão universal. O mundo todo deve ser fecundado do amor de Deus, nisso consiste a missão da comunidade cristã. Além de sintetizar a atividade de
Jesus, esse versículo final do evangelho de hoje também exprime a natureza da
“pesca de homens” para a qual ele chamou os discípulos: “curar todo tipo de
doença e enfermidade do povo”, o que significa esforçar-se constantemente para
que as pessoas sejam libertadas de todos os males que ferem a dignidade de
filhos e filhas de Deus. E é para isso que aponta a Palavra de Deus em sua
inteireza: o cuidado com a vida.
Ao apresentar o início do ministério de Jesus, recordando o chamado dos
primeiros discípulos, o evangelho deste dia nos interpela a renovar a
consciência de pessoas chamadas por Jesus para ser sinal do seu amor misericordioso
no mundo, atuando como agente de humanização. Contudo, é importante recordar
que, antes de chamar, Jesus vê, ao ver, ele ama, por isso chama. Que a Palavra
de Deus, que é o próprio Jesus, inunde nossos corações de amor, habitando em
nosso meio, e oriente o nosso viver.
Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

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