sexta-feira, janeiro 23, 2026

REFLEXÃO PARA O 3º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 4,12-23 (ANO A)


Com a liturgia deste terceiro domingo do tempo comum, inicia-se propriamente a leitura semi-contínua do Evangelho de Mateus, como é próprio do ano litúrgico A, a qual será interrompida após o sexto domingo, para a vivência dos tempos da Quaresma e da Páscoa, e retomada somente depois da Solenidade da Santíssima Trindade, já no décimo domingo. Durante esse intervalo – Quaresma, Páscoa e solenidades pós-pascais – também serão lidos trechos do Evangelho de Mateus, mas de modo aleatório, como acontece também nos tempos do Advento e do Natal, intercalando com os demais evangelhos. No ano de 2019, o Papa Francisco instituiu o terceiro domingo do tempo comum como o “Domingo da Palavra de Deus”, com o objetivo de promover uma aproximação maior das pessoas com a Palavra de Deus, evidenciando sua centralidade na vida da Igreja e ainda visando despertar o interesse pelo estudo das Sagradas Escrituras. Na Igreja do Brasil, particularmente, o “Domingo da Palavra de Deus” ainda não foi bem assimilado como tal, pois já havia o “dia da Bíblia”, celebrado no último domingo de setembro, o mês da Bíblia, uma tradição bastante consolidada em nossas comunidades.

O texto lido hoje – Mateus 4,12-23 – marca, de fato, o início do ministério de Jesus na Galileia, tendo sido profundamente preparado pelos episódios anteriores: o batismo no Jordão (Mt 3,13-17) e as tentações no deserto (Mt 4,1-11). No contexto litúrgico, o que nos preparou para lermos o evangelho de hoje foi o testemunho de João, o Batista, apontando Jesus como “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” e como “o Filho de Deus”, conforme o trecho do Quarto Evangelho lido na liturgia do domingo passado (Jo 1,29-34). O episódio das tentações (Mt 4,1-11) será lido somente no primeiro domingo da Quaresma. O texto de hoje é programático; nele são delineadas as principais linhas de todo o ministério de Jesus, ficando muito claro quais serão os destinatários privilegiados da sua missão libertadora e o conteúdo essencial da sua pregação. Daí, reconheceremos também os objetivos básicos da sua missão: inundar o mundo do amor misericordioso de Deus. Pela extensão do texto, não conseguiremos comentar de maneira minuciosa versículo por versículo, mas colheremos a mensagem central.

Partimos do primeiro versículo, pois além de nos situar no tempo e no espaço, ele apresenta elementos importantes para a compreensão do restante do texto, funcionando, inclusive, como verdadeira introdução a todo o ministério: «Ao saber que João tinha sido preso, Jesus voltou para a Galileia» (v. 12). A prisão de João se torna um divisor de águas na vida de Jesus. Além de marco cronológico para o início da sua missão, é também um sinal de qual será o seu destino, assim como o de praticamente todos os profetas: a perseguição. Do ponto de vista geográfico, o retorno à Galileia está relacionado aos episódios do batismo e das tentações, vividos no Jordão e no deserto, ambos localizados na região da Judeia. Mas significa muito mais do que isso. Antes de tudo, significa que a missão de Jesus não será uma repetição da missão de João. Ora, se João pregou na Judeia e Jesus vai para a Galileia iniciar lá o seu ministério, significa que há descontinuidade entre os dois. O programa de vida de Jesus é completamente novo, inclusive, será questionado pelo próprio João, posteriormente (Mt 11,2-6). A Galileia era uma região periférica, uma terra má afamada, conhecida pela pouca ortodoxia do seu povo. Logo, o início da missão de Jesus nessa região indica que os primeiros destinatários da sua mensagem são as pessoas excluídas e marginalizadas, gente sem boa reputação.

Mesmo ciente da novidade que Jesus inaugura, assim como fez no “evangelho da infância” (Mt 1–2), o evangelista apresenta a sua missão, desde o início, como cumprimento das profecias, por necessidade da sua comunidade, profundamente ligada às tradições do Antigo Testamento. Por isso, ele explica o início na Galileia à luz das Escrituras: «Deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum, que fica às margens do mar da Galileia, no território de Zabulon e Neftali, para se cumprir o que foi dito pelo profeta Isaías» (v. 13-14). A mudança de Nazaré para Cafarnaum é estratégica. Nazaré era apenas um pequeno povoado, o que na linguagem bíblica representa fechamento de mentalidade, conservadorismo exagerado e apego às tradições. Com uma mensagem tão libertadora como a sua, dificilmente Jesus seria aceito e compreendido lá, como atesta, inclusive, o evangelista Lucas, ao dizer que após a primeira pregação de Jesus em Nazaré já quiseram matá-lo (Lc 4,16-30). Cafarnaum, por sua vez, cujo nome significa “aldeia da consolação”, era uma cidade média e um importante entreposto comercial. Localizada às margens do lago de Genesaré, o que Marcos e Mateus chamam de mar da Galileia, provavelmente por questões teológicas, era um centro de circulação de pessoas, de mercadorias e de ideias. Por lá passavam importantes rotas comerciais. Isso facilitava também os constantes deslocamentos de Jesus para pregar em outros lugares. Logo, pessoas de diversas proveniências passavam constantemente por Cafarnaum. Num cenário assim, a Boa Nova de Jesus circularia melhor, o que não significa que tenha havido uma acolhida unânime. É interessante recordar que, embora todos os evangelistas apresentem Cafarnaum como um dos cenários da atuação de Jesus, somente Mateus diz que ele fixou morada lá. Trata-se de um dado muito relevante para a compreensão do seu ministério.

Como a comunidade de Mateus era fortemente influenciada pelo judaísmo, ele foi buscar no profeta Isaías (Is 8,23 – 9,1) uma passagem que justificasse essa opção tão revolucionária de Jesus: «Terra de Zabulon, terra de Neftali, caminho do mar, região do outro lado do rio Jordão, Galileia dos pagãos! O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz» (vv. 15-16). Zabulon e Neftali foram as primeiras tribos invadidas pelos assírios no séc. VIII a.C., onde começou a miscigenação da população, fazendo a Galileia toda ser chamada de “Galileia dos pagãos”, pejorativamente. Ora, tanto o exército da Assíria deportou parte da população local, quanto levou povos estrangeiros para habitar na Galileia, fazendo nascer um grande sincretismo cultural e religioso, além de tornar seu povo miscigenado. Isso levou a população de Jerusalém e de toda a Judeia a criar um preconceito histórico contra os galileus, tratando-os como gente inferior, pessoas praticamente excluídas da salvação. No entanto, foram as pessoas dessa região que Deus escolheu para conhecerem primeiro a sua luz que brilha em Jesus. Isso é um fato bastante revolucionário: A grande luz de Deus não foi acesa para os judeus considerados puros, frequentadores assíduos do Templo de Jerusalém, mas para um povo desprezado, para as vítimas de preconceitos e exclusão, gente considerada impura. Inclusive, quem primeiro reconheceu Jesus como fonte de luz foram os magos estrangeiros, representantes de práticas religiosas condenadas em Israel (Mt 2,1-12). O começo do ministério de Jesus na Galileia significa, portanto, a sua identificação com os marginalizados em geral.

Tendo apresentado o cenário e os destinatários primeiros do ministério de Jesus, o evangelista apresenta a sua mensagem, ou seja, o conteúdo da sua pregação: «Daí em diante Jesus começou a pregar dizendo: “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo”» (v. 17). A expressão “começou a pregar” só aparece duas vezes no Evangelho de Mateus: aqui, e em 16,21, quando Jesus vai anunciar a sua paixão, pela primeira vez, aos seus discípulos. Cada uma das ocorrências mostra o início de uma etapa no seu ministério, sendo que, nessa primeira ocorrência, indica o princípio geral, por isso, é marcado pelo anúncio do Reino. Na segunda vez, a pregação vai apontar as consequências da adesão ao Reino: a paixão – quer dizer, a cruz. O chamado à conversão e o anúncio do Reino são o centro da mensagem de Jesus. Mateus chama de “Reino dos Céus” a mesma realidade que os demais evangelistas chamam de “Reino de Deus”. Provavelmente, ele evita usar aqui o nome de Deus para não ferir a sensibilidade dos judeus, tão enraizada na sua comunidade. Esse Reino é uma sociedade alternativa, um mundo novo, é o sonho de Deus para a humanidade. Ele é dos céus porque foi todo pensado por Deus, mas seu destino é a terra, é a história humana, necessitada de humanização. Não se trata, portanto, de uma vida futura, mas é viver a vida presente conforme o projeto de Jesus. O Reino dos Céus é, portanto, um projeto de mundo e sociedade onde haja igualdade, fraternidade, amor, concórdia, solidariedade e paz; é um mundo sem preconceitos e nem exclusões, plenamente humanizado pelo amor misericordioso de Deus, fonte de vida em plenitude.

A instauração desse Reino na terra é tão urgente e necessária que, um pouco mais adiante, o próprio Jesus ensinará os discípulos a pedirem ao Pai, em oração, que faça vir o Reino (Mt 6,10), ao ensiná-los a rezar o Pai nosso. Toda a práxis de Jesus é manifestação desse Reino, porque ele mesmo é o Reino em pessoa. Por isso, ele diz que o Reino está próximo, pois ele está presente no mundo e está prestes a iniciar a sua missão libertadora, marcada pela prática do bem. E a sua práxis deve ser continuada pelos seus discípulos de todos os tempos. Para abraçar um projeto como esse é necessária uma mentalidade nova. Por isso, o anúncio do Reino é precedido do imperativo “convertei-vos” (em grego: μετανοεῖτε – metanoeite). Conversão significa uma mudança radical de mentalidade, e não uma simples intensidade nas práticas religiosas e devocionais; é olhar o mundo de maneira nova e adotar um novo estilo de vida. E a lógica do Reino exige isso. Obviamente, o estilo de vida exigido como fruto da conversão é o estilo de Jesus, marcado pela intensidade do amor que liberta, inclui, humaniza e, por isso, salva.

A instauração do Reino é tão urgente, que Jesus chama logo seus primeiros quatro colaboradores, duas duplas de irmãos, cujos chamados se tornam paradigma vocacional válido para todos os tempos. Eis o relato dos dois primeiros: «Quando Jesus andava à beira do mar da Galileia, viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André. Estavam lançando a rede ao mar, pois eram pescadores. Jesus disse a eles: “Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens”. Eles imediatamente deixaram as redes e o seguiram» (vv. 18-20). O cenário do chamado dos primeiros discípulos é o mar, embora se tratasse de um grande lago, apenas. O evangelista chama de mar por razões teológicas. Para a mentalidade bíblica, o mar era a morada do mal, sinônimo de perigo e morte. Propositalmente, é nesse ambiente que Jesus escolhe as primeiras pessoas para o seu seguimento: os irmãos Simão Pedro e André. Ele não vai a um ambiente cultual recrutar devotos, mas vai onde há gente sem reputação e sinais de perigo e morte. Embora não vivessem mal economicamente, pois a pesca era uma atividade rentável, os pescadores não gozavam de nenhum prestígio social, pois o contato com o mar tornava a atividade deles depreciativa, embora não fossem considerados impuros, como eram tratados os profissionais de outras atividades, como os curtidores e os pastores, por exemplo.

Como se vê, o chamado de Jesus acontece no cotidiano: os pescadores são chamados enquanto lançam as redes ao mar. Isso serve para ilustrar a necessidade de adotar um novo estilo de vida para seguir Jesus e, consequentemente, inserir-se no Reino. O deixar as redes imediatamente para seguir Jesus (v. 20) significa exatamente a passagem de um estilo de vida para outro. O convite a ser “pescadores de homens” (v. 19) deve ser bem esclarecido, pois é muito fácil de ser deturpado, como tem sido intensamente, sobretudo nos tempos atuais. Ora, muitas vezes, usa-se essa expressão para justificar proselitismos e até imposição de crenças, o que não combina com o projeto de Jesus. Como afirmamos anteriormente, o mar tem um sentido muito negativo para o mundo bíblico; é sinônimo de perigo, pois evoca o domínio do mal. Ser “pescador de homens” (de gente!), portanto, é ser sinal de vida, e assim é a missão dos seguidores de Jesus em todos os tempos: tirar homens e mulheres de condições desumanas; é restituir a dignidade às pessoas, combatendo todos dos tipos de mal que assolam o mundo, como a violência, a corrupção, a fome e as injustiças em geral. O seguimento de Jesus exige o comprometimento com essa causa.

Na continuidade, o evangelista apresenta o chamado de mais uma dupla de irmãos: «Caminhando um pouco mais, Jesus viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu e seu irmão João. Estavam na barca com seu pai Zebedeu consertando as redes. Jesus os chamou. Eles imediatamente deixaram a barca e o pai, e o seguiram» (vv. 21-22). O cenário continua o mesmo, mas temos algumas novidades, principalmente nas renúncias. Enquanto Simão Pedro e André deixaram apenas as redes, o evangelista diz que Tiago e João deixaram a barca e o pai. Há, portanto, um crescendo nas exigências.  O primeiro chamado enfatiza o rompimento com a ordem socioeconômica, representada pelas redes (v. 20), enquanto o segundo destaca a ruptura com a estabilidade, representada pela barca, e o mundo cultural e religioso, simbolizado pelo pai, o chefe de família e detentor de autoridade na sociedade patriarcal. Com isso, o evangelista quer dizer que a relação com Jesus deve ter precedência sobre todas as instâncias da vida. Também é um sinal de que, ao longo da história, as exigências para o seguimento de Jesus tendem a aumentar cada vez mais, conforme os sinais dos tempos. Por isso, o chamado dos primeiros discípulos não é propriamente uma crônica, mas uma parábola de todo chamado vocacional, da atenção de Jesus a cada pessoa, mediante o seu olhar. E a resposta dos primeiros discípulos é paradigma de toda resposta e acolhida ao olhar interpelante de Jesus. Nos dois chamados, o evangelista recorda que, antes de tudo, Jesus viu os pescadores. De fato, ele vê cada pessoa em sua inteireza, ou seja, de modo profundo, contemplando cada um como obra prima do seu Pai.

Na conclusão, o evangelista apresenta um primeiro resumo da missão de Jesus, recordando o caráter itinerante e libertador do seu ministério: «Jesus andava por toda a Galileia, ensinando em suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando todo tipo de doença e enfermidade do povo» (v. 23). Como se vê, é uma atividade dinâmica, própria de quem não vive acomodado, mas vai ao encontro das pessoas, onde há necessidade real. Andar por toda a Galileia indica a intensidade do agir libertador de Jesus, apontando para a inclusão e a fertilidade da misericórdia que ele veio espalhar no mundo. Esse dado antecipa a missão universal que, já Ressuscitado, ele vai conferir aos discípulos, no final do Evangelho: «Ide, portanto, por todas as nações… ensinando-lhes tudo o que vos tenho ordenado…» (Mt 28,19-20). A missão na Galileia é o ponto de partida para a missão universal. O mundo todo deve ser fecundado do amor de Deus, nisso consiste a missão da comunidade cristã. Além de sintetizar a atividade de Jesus, esse versículo final do evangelho de hoje também exprime a natureza da “pesca de homens” para a qual ele chamou os discípulos: “curar todo tipo de doença e enfermidade do povo”, o que significa esforçar-se constantemente para que as pessoas sejam libertadas de todos os males que ferem a dignidade de filhos e filhas de Deus. E é para isso que aponta a Palavra de Deus em sua inteireza: o cuidado com a vida.

Ao apresentar o início do ministério de Jesus, recordando o chamado dos primeiros discípulos, o evangelho deste dia nos interpela a renovar a consciência de pessoas chamadas por Jesus para ser sinal do seu amor misericordioso no mundo, atuando como agente de humanização. Contudo, é importante recordar que, antes de chamar, Jesus vê, ao ver, ele ama, por isso chama. Que a Palavra de Deus, que é o próprio Jesus, inunde nossos corações de amor, habitando em nosso meio, e oriente o nosso viver.

Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sábado, janeiro 17, 2026

REFLEXÃO PARA O 2º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Jo 1,29-34 (ANO A)



Todos os anos, a liturgia do segundo domingo do empo comum emprega um texto do Evangelho segundo João, convencionalmente chamado também de Quarto Evangelho, devido à sua posição na ordem canônica do Novo Testamento. O trecho selecionado varia anualmente, conforme a dinâmica cíclica do ano litúrgico (ano A: Jo 1,29-34; ano B: Jo 35-42; Ano C: Jo 2,1-11). Concretamente, esse domingo constitui a verdadeira abertura solene do tempo comum, uma vez que não existe um primeiro domingo do tempo comum no calendário litúrgico. Como se sabe, ao longo do ano, a liturgia do tempo comum faz uma apresentação contínua do ministério de Jesus, desde os seus primórdios na Galileia até o seu final, em Jerusalém. Recorre-se, portanto, ao Evangelho de João no segundo domingo, porque é esse o que introduz a vida pública de Jesus de modo mais aprofundado. Por ocasião do Ano Litúrgico A, o trecho lido neste domingo é Jo 1,29-34. Nessa passagem, aparecem declarações bastante relevantes sobre a identidade e missão de Jesus, de grande profundidade teológica, que só serão bem compreendidas ao longo do tempo, acompanhando cada passo da sua vida pública, como propõe a dinâmica do ano litúrgico, sobretudo o tempo comum. É importante recordar que, ao contrário dos sinóticos (Mt-Mc-Lc), o Quarto Evangelho não narra o batismo de Jesus, mas faz alusões implícitas a esse acontecimento, como se vê no evangelho de hoje.

O texto lido neste dia faz parte da primeira seção narrativa do Evangelho de João, convencionalmente chamada pelos estudiosos de “semana inaugural” (Jo 1,19–2,21). Trata-se de uma sequência narrativa na qual o evangelista introduz a vida pública de Jesus com indicações temporais que indicam a duração de uma semana. Com isso, o autor pretende apresentar a obra de Jesus como uma nova criação, em alusão à criação originária, desenvolvida também em uma semana (Gn 1,1–2,3). O primeiro dia da “semana inaugural” do evangelho joanino foi marcado por uma comitiva fiscalizadora, enviada pelas autoridades religiosas de Jerusalém para interrogar João sobre sua identidade (Jo 1,19-28), e o último dia ou sétimo é marcado pelas bodas de Caná (Jo 2,1), o qual é introduzido pela expressão “no terceiro dia”, mas em relação aos quatro dias anteriores e, portanto, é o sétimo da primeira semana. O episódio narrado no evangelho de hoje corresponde ao segundo dia da semana. Porém, isso não se percebe na tradução do lecionário litúrgico, que substituiu o dado temporal do texto original pela genérica fórmula de introdução “naquele tempo”.

E iniciamos a nossa reflexão, portanto, recordando o dado temporal com o qual o evangelho de hoje é introduzido, na língua original. Ora, ao invés da genérica fórmula de introdução “naquele tempo”, o texto começa com uma expressão que poderia ser traduzida como “no dia seguinte” ou “um dia depois” (em grego: τῇ ἐπαύριον – té epaurion). A princípio, pode parecer uma observação pouco relevante, mas na verdade se trata de algo bastante significativo. Ora, se o evangelista emprega essa expressão quer dizer que o episódio a ser narrado possui relação com o anterior, como de fato tem. Desse modo, a forma correta do primeiro versículo é: «No dia seguinte, João viu Jesus aproximar-se dele e disse: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”» (v 29). O Evangelho de hoje, portanto, apresenta o segundo dia da nova criação, ou seja, do novo tempo que o autor do Quarto Evangelho quer apresentar. Um dia após ter sido interrogado pelos comissários de Jerusalém, «João viu Jesus aproximar-se dele» (v. 29a). É necessário perceber a importância da ação de Jesus: vir, aproximar-se, caminhar em direção de alguém, no caso, de João. Uma nova ordem na história da salvação está sendo inaugurada, e João a contempla como testemunha privilegiada: é Deus quem vem ao encontro dos homens e mulheres, ou seja, ao encontro da humanidade. À humanidade, cabe o papel de ver e, por consequência, reconhecer, acolher e testemunhar, como fez João.

A propósito de João, é importante recordar que, no Quarto Evangelho, ele é identificado como testemunha, bem mais do que que pela atividade batizadora, como acontece nos sinóticos. Inclusive, no evangelho joanino ele não é sequer chamado de Batista, mas apenas de João, embora se afirme que ele também batizava, como diz o evangelho de hoje (v. 33). Também não se identifica com a tradicional figura do precursor, outra característica sua predominante nos sinóticos. Conforme a perspectiva teológica do Quarto Evangelho, João é a testemunha, bem como sua missão é dar testemunho, e isso é suficiente para demonstrar sua importância. De fato, esse dado é bastante relevante, pois o testemunho (em grego: μαρτυρία – martyría) é uma categoria teológica de grande importância para a comunidade joanina e, nesse sentido, a figura de João se torna paradigmática para o discipulado de Jesus em todos os tempos. Ora, João reconheceu Jesus; reconhecendo-o, deu testemunho dele, como o evangelista havia antecipado no prólogo (Jo 1,6-8). E os discípulos de Jesus, por sua vez, além de reconhecê-lo, devem também manifestá-lo por meio do testemunho, inclusive, reconhecendo-o nas situações mais adversas: nos pobres, pecadores e pessoas marginalizadas de um modo geral. Portanto, o que João fez em relação a Jesus, muito mais devem fazer os cristãos, em todos os tempos.

E a reação de João diante do que estava contemplando foi decisiva e corajosa. Ao afirmar que Jesus é «o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!», ele fez uma das declarações mais revolucionárias de toda a Bíblia. Com essa afirmação, ele desmascarou e decretou a falência de todo um sistema religioso e político sustentado pela exploração que o sistema sacrificial do templo de Jerusalém promovia. Essa declaração revela um novo rosto de Deus e anuncia, acima de tudo, uma nova maneira de se relacionar com ele. E a maneira nova de se relacionar com Deus corresponde ao fim do sistema cultual centralizado no templo de Jerusalém, símbolo de corrupção e exploração. A expressão “Cordeiro de Deus” (em grego: ἀμνὸς τοῦ θεοῦ – amnós tu Theú) é uma das maiores novidades do Evangelho de João; em toda a Bíblia, aparece somente duas vezes (Jo 1,29.36). No Novo Testamento, somente dois livros aplicam a imagem do Cordeiro a Jesus: o Quarto Evangelho e o Apocalipse. Devido à novidade que comporta, muitas possibilidades de interpretação foram sugeridas para essa expressão, ao longo da história, umas convincentes e outras não, umas condizentes com a lógica do Quarto Evangelho e outras não. Portanto, diversas perspectivas podem ser apresentadas.

Uma primeira perspectiva para a compreensão da definição de Jesus como “Cordeiro de Deus” é a messiânica. Ora, estava consolidada no imaginário do judaísmo da época a imagem de um messias valente, guerreiro, rei forte e potente, com garras semelhantes às de um leão – o leão de Judá (Gn 49,9; Os 5,14; Mq 5,7-8; Is 31,4). Como o leão era um dos símbolos do poder régio no antigo Oriente, em Israel compartilhava-se o mesmo imaginário, projetando tais traços em seu esperado Messias. Havia, portanto, muita expectativa para a chegada desse personagem. Mesmo que essa expectativa messiânica não fosse uniforme em todo o judaísmo, era suficientemente difundida para moldar o imaginário popular. João, por sua vez, desconstrói completamente essa imagem, pois o cordeiro era símbolo da mansidão e fragilidade, o oposto das expectativas do povo. Com isso, o evangelista quer dizer que o messias autêntico não é um guerreiro lutador, mas homem manso e não violento. Porém, mansidão não quer dizer resignação, como Jesus vai mostrar ao longo de sua vida pública, lutando incessantemente pela ruptura total com os costumes e tradições que oprimem e matam, mas sem jamais empunhar as armas da violência. Outra perspectiva de leitura, que não exclui a primeira, mas a complementa, é a releitura da imagem do cordeiro no Antigo Testamento, especificamente em duas ocasiões: o cordeiro pascal (Ex 12,1-28), e o Servo sofredor que é comparado a um cordeiro (Is 53,6-7). E nessas duas ocasiões o cordeiro evoca libertação: na primeira, simboliza a libertação da escravidão no Egito; na segunda, indica que o sofrimento do povo no exílio da Babilônia estava acabando, ou seja, a libertação estava próxima. Em ambas as situações, a libertação simbolizada pelo cordeiro era parcial, destinada apenas ao povo de Israel. Em Jesus o horizonte é ampliado: ele traz libertação para o mundo inteiro.

Para a instituição religiosa de Israel, a função do Cordeiro Jesus apontada por João era um verdadeiro golpe mortal: tirar o pecado do mundo. Ora, todo o aparato religioso de Israel era sustentado “às custas do pecado” do povo. Quanto mais o povo pecasse, mais sacrifícios precisaria oferecer no templo, mais ofertas deveria dar e, assim, mais ricas ficariam as autoridades religiosas. Sendo Jesus o Cordeiro, é ele mesmo quem se oferece, quem se doa, logo, não há mais necessidade de oferecer cordeiros e touros no templo. Em Jesus, Deus veio ao encontro definitivo da humanidade, oferecendo-se por inteiro, fazendo-se carne e habitando no mundo (Jo 1,1-18). Não há mais distância entre Deus e a humanidade, por isso, os sacrifícios do templo não mais necessários. E o Cordeiro Jesus não apenas “expia” pecados, mas elimina definitivamente o pecado do mundo. E a eliminação do pecado do mundo representa a falência total do templo. Jesus não veio para expiar os pecados, mas para abolir o pecado e, não apenas de Israel, mas da humanidade inteira, ou seja, o pecado do mundo.

Tirar o pecado do mundo significa restabelecer na humanidade a sua capacidade de comunicação com Deus e imprimir nela o amor. A visão de pecado do Quarto Evangelho é completamente diferente daquela que a religião de Israel tinha imposto; não é a transgressão individual de preceitos criados pela própria religião, mas a falta de comunicação com Deus, o fechamento e a dureza de coração. E, quem tinha distanciado Deus da humanidade e, portanto, impossibilitado essa comunicação, tinha sido a própria religião. A novidade que Jesus veio trazer ao mundo – ou seja, o seu “Evangelho” – é um projeto de vida plena, marcado pela igualdade, fraternidade, justiça, solidariedade e amor; é nesse projeto que Deus se revela e, portanto, faz desaparecer o pecado. Onde se vive à maneira de Jesus, Deus se faz presente e, por isso, o pecado desaparece, o mal perde o vigor. Logo, os sistemas cultuais expiatórios perdem seu sentido e seu valor quando o projeto de Jesus é assimilado. Para quem vivia “às custas do pecado” do povo, como o templo de Jerusalém, essa nova ordem é altamente prejudicial; na verdade, é destruidora, por isso, será tão combatida.

E o evangelista continua mostrando o testemunho de João. E é um testemunho importante porque reconhece a necessidade de vir depois dele alguém que já existia antes: «Dele é que eu disse: “Depois de mim vem um homem que passou à minha frente, porque existia antes de mim”» (v. 30). Aqui, João faz uma espécie de retrospecto do testemunho que já estava dando há certo tempo, inclusive, parte dessa afirmação está na resposta dada no interrogatório dos enviados de Jerusalém (v. 27). Assim, ele reconhece o quanto são maravilhosos os desígnios de Deus: a humanidade não poderia permanecer nem perecer daquela forma e naquele estágio em que se encontrava antes do Cordeiro se manifestar. O que preexistia, como fora evidenciado pelo evangelista no prólogo (Jo 1,1-18), deveria se manifestar, e João teve a graça de testemunhar essa manifestação que marcou o início de uma nova humanidade e uma nova criação. João tinha consciência de que, embora a salvação agora contemplada, tivesse um alcance universal, seria manifestada primeiro a Israel, através do sinal exterior do seu batismo com água: «Também eu não o conhecia, mas se eu vim batizar com água, foi para que ele fosse manifestado a Israel» (v. 31). Portanto, se no momento da eleição foi por privilégio, no tempo de João já era por necessidade. Israel não poderia deixar de ser o primeiro campo de manifestação dessa nova ordem ou etapa da história da salvação. O desenrolar do Evangelho, contudo, vai mostrar que, embora tenha sido o primeiro destinatário, Israel não reconheceu.

A continuidade do testemunho de João atesta sua autenticidade: ele mesmo fez a experiência e viu «O Espírito descer como uma pomba, do céu e permanecer sobre ele» (v. 32). Com essa imagem, João atesta a provisoriedade do seu batismo e da religião do seu tempo: o Espírito desceu do céu e permaneceu em Jesus; logo, a morada do divino na terra não é mais o templo, mas todo ser humano que acolhe e assimila o jeito de viver de Jesus, uma vez que, após a ressurreição, esse mesmo Espírito será enviado a toda a humanidade. João proclama que Jesus é a morada do Espírito e, assim, a humanidade é transformada e reordenada, tornando-se plenamente humanizada. E é a contemplação da descida e permanência do Espírito em Jesus (v. 33) que dá a João a certeza de que Jesus é, inclusive, mais do que Cordeiro: «Eu vi e dou testemunho: Este é o Filho de Deus!» (v. 34). Ora, se isolada, a simples imagem do Cordeiro, apesar de revolucionária, ainda poderia ser confundida com a figura do servo. Por isso, o reconhecimento de Jesus como o Filho de Deus é tão decisiva.

Com efeito, a declaração de que Jesus é o Filho de Deus não revela apenas um traço da sua identidade, mas aponta para um novo jeito de se relacionar com Deus. Revela a comunhão e o amor recíprocos entre os dois – o Pai e o Filho. Sendo Filho de Deus, Jesus é “igual” ao Pai e, portanto, herdeiro; por ter em si o Espírito, somente ele poderá doá-lo, transmitindo-o a toda a humanidade, como fará após a ressurreição. Assim, acolhendo esse Espírito, todos podem tornar-se também filhos de Deus (Jo 1,12) e, consequentemente, também doadores do Espírito Santo. Por sinal, o reconhecimento de Jesus como Filho de Deus é o objetivo principal de todo o Quarto Evangelho, como vem afirmado na primeira conclusão da obra: «Esses sinais foram escritos para crerdes que Jesus é o Filho de Deus» (Jo 20,31a). Por isso, logo no início, o evangelista apresenta uma testemunha privilegiada desse reconhecimento: João (Jo 1,6-8.19.29.32.34); e no final, toda a comunidade dos discípulos e discípulas (Jo 20,1-31). A comunidade cristã, portanto, é chamada ser continuadora da missão testemunhal de João.

Esperava-se um Messias valente para exterminar os pecadores... Deus enviou um Messias manso como um cordeiro, para tirar o pecado do mundo, através de uma proposta nova de vida para todos, principalmente os pecadores e todas as pessoas marginalizadas. A condição de Jesus como Cordeiro e Filho de Deus representam a humanização completa que ele veio oferecer ao mundo. É a superação do Deus distante e rígido que exigia sacríficios, pelo Deus que manifesta sua glória na fragilidade da carne humana, como celebramos no Natal e cujos ecos se sentem ainda na liturgia de hoje e devem estender-se por todo o tempo.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

 

sábado, janeiro 10, 2026

REFLEXÃO PARA A FESTA DO BATISMO DO SENHOR – Mt 3,13-17 (ANO A)


Com a festa do Batismo do Senhor, conclui-se oficialmente o tempo do Natal. Contudo, há estudiosos que defendem que o domingo em que se celebra esta festa já seja considerado o primeiro do Tempo Comum. O certo é que esta celebração funciona como transição entre os dois ciclos – ciclo do Natal e Tempo Comum. O evangelho desta festa varia conforme o ciclo litúrgico vigente. Como o batismo é um acontecimento narrado pelos três evangelhos sinóticos, a cada ano se lê o episódio segundo o evangelho predominante para o respectivo ano litúrgico. Neste ano, em decorrência do “ano A”, o texto proposto é Mt 3,13-17. Pelo fato de tratar-se de um dos poucos episódios da vida de Jesus atestado pelos quatro evangelhos, os estudiosos consideram o batismo um dos acontecimentos com mais probabilidade de ter sido mesmo um fato histórico, um evento real, embora cada relato esteja revestido de elementos teológicos e simbólicos. De fato, o batismo de Jesus é narrado explicitamente pelos três sinóticos – Mt 3,13-17; Mc 1,9-11; Lc 3,21-22 – e implicitamente pelo Quarto Evangelho – Jo 1,19-34. Além da ampla atestação literária, o que mais tem contribuído para a aceitação do batismo de Jesus como um acontecimento real são os problemas de interpretação deste evento, desde as primeiras gerações cristãs. Diante de tais problemas, os estudiosos consideram que, se não se tratasse de um fato histórico e importante da vida de Jesus, certamente os evangelistas o teriam omitido de seus escritos.

Os principais problemas e questionamentos suscitados pela presença do batismo nos evangelhos, observados por teólogos e exegetas, são os seguintes: sendo o batismo um rito de purificação destinado a pecadores arrependidos, por que Jesus passou por esse rito, uma vez que não era pecador? Supondo que o ministro do batismo tem autoridade sobre a pessoa batizada, porque Jesus aceitou ser batizado por João, se era superior a ele? Questões desse tipo surgiram muito cedo, principalmente na comunidade de Mateus. Por isso, entre as três versões do batismo nos sinóticos, a de Mateus é a mais rica; é a única que contém um diálogo entre João e Jesus, que funciona como resposta a questionamentos como esses recordados acima. Portanto, acredita-se que dificilmente os relatos evangélicos teriam recordado um evento tão problemático se não fosse realmente importante e histórico. A historicidade do evento, no entanto, não isenta o relato de conter artifícios literários e elementos simbólicos. Na verdade, os relatos evangélicos contêm a interpretação teológica do evento, e não uma mera crônica descritiva. Ao colocá-lo como marco inaugural do ministério de Jesus, os evangelistas – especialmente os sinóticos (Mt, Mc e Lc) – apresentaram o batismo como um evento de revelação, revestindo-o de elementos típicos de teofanias do Antigo Testamento. Além disso, cada evangelista relatou o evento à sua maneira conforme as informações recebidas de suas fontes e as necessidades de suas respectivas comunidades. A presença de tantos elementos comuns pode levar o leitor a pensar que os relatos são todos iguais. Por isso, enfatizaremos, ao longo da reflexão, as particularidades do relato de Mateus. 

Olhemos para o texto, partindo o seu início: «Jesus veio da Galileia para o rio Jordão, a fim de se encontrar com João e ser batizado por ele» (v. 13). Essa informação é muito significativa, pois relata a primeira ação-movimento de Jesus no Evangelho de Mateus. Até então, no chamado “evangelho da infância” (Mt 1–2), Jesus não tinha feito nada por conta própria; todo o seu movimento fora conduzido por José e Maria, como na fuga para o Egito e o retorno à Galileia, para viver em Nazaré (Mt 2,13-19). Aqui, ele está saindo da vida oculta e anônima, vivida supostamente em Nazaré, e começa a assumir seu protagonismo, abandonando a passividade até então. Ao falar do deslocamento, o evangelista enfatiza a Galileia como lugar das origens de Jesus. Ele sai de lá com um objetivo claro: encontrar-se com João e ser batizado por ele, mas a Galileia é o seu lugar, é onde ele vai desenvolver sua missão, quando voltar do batismo e das tentações. É relevante que o primeiro movimento de Jesus seja em direção aos pecadores, pois eram esses que estavam sendo batizados por João, no Jordão (Mt 3,6). A passagem dele pelo batismo é um pretexto para estar junto dos pecadores, antecipando quem serão os destinatários prediletos da sua missão: as pessoas pecadoras, pobres e marginalizadas da sociedade e da religião em Israel.

A atividade batizadora de João estava gozando de grande aceitação popular, atraindo pessoas de toda a Judeia, inclusive gente da cidade de Jerusalém, o centro do poder político e religioso (Mt 3,5). A saída das pessoas de Jerusalém indo ao seu encontro para serem batizadas por ele, confessando os pecados (Mt 3,6), é um verdadeiro atestado de falência da religião centralizada no Templo. Até mesmo fariseus e saduceus, membros dos grupos religiosos mais influentes da época buscavam o batismo de João (Mt 3,7). Certamente, porque a religião institucionalizada do templo de Jerusalém já não correspondia mais às expectativas e necessidades das pessoas. Por causa disso, os profetas e pregadores carismáticos, como João e posteriormente Jesus atraíam muitas pessoas em seu entorno. De acordo com o evangelista, João tinha plena convicção da provisoriedade do seu batismo: era apenas um rito de purificação e um sinal de conversão (Mt 3,11). Ora, João sabia que estava para vir o Messias, portador de um batismo definitivo, no Espírito Santo e no fogo, quer dizer, com uma grande força transformadora, capaz de penetrar no íntimo da pessoa, o que as águas do rio Jordão não eram capazes de proporcionar. Consciente de que seu batismo era provisório, João prepara o caminho e a missão de Jesus. Por isso, além de marcar o início da vida pública de Jesus, o seu batismo marca também a transição entre a pregação de João e a sua. 

O evangelista faz de tudo para deixar claro que Jesus não tinha necessidade de receber o batismo de João, mas o fez em solidariedade aos pecadores e em obediência ao projeto libertador do Pai. Inclusive, mostra que até mesmo João reconhecia isso: «Mas João protestou, dizendo: “Eu preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?”» (v. 14). Mateus é o único evangelista que traz essa objeção de João, o que dá uma riqueza ímpar ao seu relato, certamente para responder às necessidades de sua comunidade e destacar a superioridade de Jesus em relação ao profeta precursor. De fato, esse protesto de João deixa ainda mais claro que Jesus não tinha necessidade do batismo, pois não havia pecado nele. Quis recebê-lo em solidariedade aos pecadores, deixando claro desde o início de seu ministério que toda a sua práxis seria direcionada especialmente às pessoas mais necessitadas. Portanto, com essa objeção de João, o evangelista alivia o escândalo que o batismo de Jesus por alguém “menor” do que ele poderia causar na sua comunidade e nos futuros leitores. Por isso, ele recorda que o próprio João viu como absurda a ideia de batizar alguém maior do que ele e sem pecado.

À objeção de João, Jesus responde com uma síntese de todo o seu ministério: «Jesus, porém, respondeu-lhe: “Por enquanto deixa como está, porque nós devemos cumprir toda a justiça!” E João concordou» (v. 15). Além do rico conteúdo, essa frase é bastante significativa também pelo fato de conter as primeiras palavras de Jesus no Evangelho de Mateus. E são palavras programáticas, altamente significativas, pois contém uma verdadeira síntese da sua missão: “cumprir toda a justiça”. O verbo “cumprir” e o substantivo “justiça” são duas palavras-chaves para Mateus e sua comunidade. Pode-se dizer que resumem toda a teologia do respectivo evangelista. O verbo “cumprir” refere-se ao conjunto das Sagradas Escrituras judaicas (o Antigo Testamento), que encontra sua plenitude na vida e missão de Jesus. Da concepção até a paixão de Jesus, Mateus repete frequentemente que as Escrituras se cumprem nas palavras e atitudes de Jesus (Mt 1,22; 2,15.17.23; 4,14; 5,17; 8,17; 12,17; 13,35; 21,4; 26,54.56; 27,9). Se trata de um dos verbos mais repetidos ao longo do Evangelho. Não significa a execução de ações, mas de levar o projeto libertador de Deus à plenitude. Em outras palavras, é fazer a vontade do Pai. “Justiça”, por sua vez, é a conformidade à vontade de Deus; é todo o plano divino de salvação, compreendendo a predileção de Deus pelos pecadores, pobres e marginalizados. E João concordou com as palavras de Jesus, como deve concordar também a comunidade cristã em todos os tempos: é Jesus o cumpridor da justiça, por excelência.

Na continuidade, afirma o texto que, «Depois de ser batizado, Jesus saiu logo da água. Então o céu se abriu e Jesus viu o Espírito de Deus, descendo como pomba e vindo pousar sobre ele» (v. 16). A abertura dos céus é uma imagem comum na literatura judaica bíblica e extrabíblica. Significa, antes de tudo, a disposição de Deus de se comunicar com a humanidade. Quando os tempos estavam muito difíceis, imaginava-se que Deus tinha fechado os céus e não mais se comunicava com a humanidade. Quando o profeta Isaías (Terceiro Isaías) se lamenta do julgo da dominação persa, após o exílio, expressa o desejo de ver “os céus se rasgando para Deus descer em socorro” (Is 63,19). A abertura do céu no evangelho de hoje, portanto, significa que, em Jesus, a comunicação entre Deus e a humanidade é restabelecida definitivamente. No Evangelho de Mateus, isso se torna ainda mais evidente, por ser o “evangelho da presença”, o único que apresenta explicitamente Jesus como o Emanuel, ou seja, o Deus conosco (Mt 1,23). Em Jesus, portanto, Deus está, Deus é junto à humanidade. Já a imagem do Espírito de Deus descendo como uma pomba é uma novidade na linguagem bíblica, embora alguns estudiosos tenham tentado conciliar essa imagem com o “pairar” do Espírito de Deus sobre as águas no princípio da criação (Gn 1,2), ou com a pomba da paz cósmica, que Noé soltou da arca durante o dilúvio (Gn 8,8); essas interpretações, no entanto, já não são mais convincentes. O acontecimento é inovador em tudo, até mesmo na simbologia.

As imagens mais usadas para o Espírito de Deus na Bíblia são o fogo e o vento (At 2,1-13). Porém, tanto o fogo quanto o vento, simbolizam o Espírito Santo pela força e a capacidade de criação e transformação; em Jesus essas imagens não teriam sentido, pois o Espírito não desceu sobre ele para transformá-lo, mas apenas como sinal para confirmá-lo como o Filho amado do Pai, e para tornar pública essa confirmação. O Espírito preenche e transforma quem é carente dele; em quem já o possui em plenitude, como Jesus, apenas confirma. Desde a sua geração na eternidade e encarnação no ventre de Maria, Jesus já possuía o Espírito Santo em plenitude. A pomba evoca serenidade, tranquilidade, paz e consolo; não causa assombro algum; é esse o sentido da manifestação do Espírito com essa forma no batismo de Jesus: ele não foi transformado pelo Espírito naquele momento, porque já era fruto desse mesmo Espírito. Com isso, temos mais uma confirmação de que ele é mesmo Deus conosco, pois possui o Espírito de Deus em plenitude e, onde está o Espírito de Deus, está ele mesmo.

Contudo, mais importante que a imagem em si é a comunicação restabelecida entre a humanidade e Deus, não passando mais pela mediação das lideranças religiosas de Jerusalém, mas somente pela pessoa de Jesus. O céu se abre, Deus fala e afirma que o “seu bem-querer”, ou seja, a sua satisfação, não está nos inúmeros sacrifícios oferecidos no templo de Jerusalém, mas no seu Filho Amado. Mesmo com ecos veterotestamentários (Is 42,1; Sl 2,7), a afirmação de Deus aqui é completamente nova de significado, superando todas as expectativas e promessas: «E do céu veio uma voz que dizia: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus o meu agrado”» (v. 17). O messias que o povo esperava era apenas um servo de Deus e filho de Davi, o que seria um mediador a mais. Deus envia o seu próprio Filho como único mediador. A voz que sai do céu significa Deus falando diretamente com a humanidade, dizendo que tem prazer por Jesus realizar a sua vontade; é isso o que significa pôr o agrado nele. Isso é realmente a inauguração de um novo tempo. Jesus agrada ao Pai à medida em que se mistura com os pecadores, plenamente inserido na história, acolhendo a todos sem distinção, embora com predileção clara pelos últimos, os mais necessitados e marginalizados. Todo o ministério de Jesus constitui o agrado ao Pai, especialmente por priorizar o amor e a misericórdia, ao invés dos sacrifícios e holocaustos. Enfim, ele se faz, de fato, o Deus conosco.

Que a recordação do batismo de Jesus reforce em nós a necessidade de estarmos em sintonia com o Pai, ouvindo a sua voz com sensibilidade aos impulsos do Espírito Santo que se manifesta nas diversas situações cotidianas. Que sejamos confirmados como filhos e filhas de Deus, em seu amor, para viver como irmãos e irmãs, à maneira de Jesus de Nazaré, o Filho Amado que fez apenas o bem por onde passou (At 10,38).

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

sexta-feira, janeiro 02, 2026

REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DA EPIFANIA DO SENHOR – MATEUS 2,1-12


Neste domingo, a Igreja no Brasil celebra a solenidade da Epifania do Senhor, uma festa que pode ser considerada um verdadeiro prolongamento do Natal. Epifania quer dizer manifestação, deriva do verbo grego “epifaino” (ἐπιφαίνω), cujo significado literal é manifestar, aparecer, resplender. Nesta solenidade celebramos, então, a manifestação de Deus em Jesus como luz, guia e Senhor de todo o universo. O evangelho desta festa é o mesmo para todos os anos: Mt 2,1-12, texto que compreende o episódio da visita dos magos do Oriente, os primeiros personagens do Evangelho de Mateus a reconhecer Jesus como rei; eles saíram de longe para adorar à criança recém-nascida, configurando-se como uma das primeiras surpresas da obra de Mateus. É importante observar que, embora a celebração recorde a manifestação de Deus, o texto apresenta um movimento inverso: é o mundo com sua pluralidade de raças e culturas, representadas pelos magos do Oriente, que manifesta sua adesão e aceitação ao senhorio de Jesus, indo ao seu encontro.

A nível de contextos narrativo e literário, é importante recordar que o episódio dos magos é exclusivo de Mateus, constituindo-se uma das principais novidades do seu “evangelho da infância” (Mt 1–2). Na verdade, tudo o que faz parte dos “evangelhos da infância” configura-se como novidade, tendo em vista que há apenas dois relatos dessa natureza no Novo Testamento: Mt 1–2 e Lc 1–2, respectivamente. E os dois são substancialmente diferentes entre si, por isso, o que um traz é sempre novidade em relação ao outro, à exceção da concepção virginal de Jesus, os nomes de José e Maria e do próprio Jesus, além do nascimento em Belém. Todos os demais elementos são próprios de cada evangelista, sobretudo a maneira de narrar cada episódio. O episódio dos magos está para Mateus como o dos pastores para Lucas. No entanto, o dos magos se torna ainda mais surpreendente, tendo em vista a origem inusitada dos personagens. Trata-se de um texto muito rico em teologia e simbologia, além da grande beleza que possui. É um dos textos que melhor revela as habilidades teológicas e literárias do evangelista. Certamente, é o episódio mais recordado de todo o “evangelho da infância” de Mateus, sobretudo porque em relação ao anúncio do nascimento de Jesus as tradições cristãs priorizaram a versão de Lucas, mais focada na pessoa de Maria, enquanto Mateus valorizou mais a figura de José. Ao longo da história, o episódio dos magos foi interpretado mais folcloricamente do que teologicamente. Daí a dificuldade de termos uma interpretação mais fidedigna ao sentido real do texto, tendo em vista que as interpretações folclóricas, inclusive adotadas pelo cristianismo oficial, estão muito enraizadas no imaginário popular, a começar pela transformação dos magos em reis.

Começamos o estudo do texto partindo dos primeiros versículos: «Tendo nascido Jesus na cidade de Belém, na Judéia, no tempo do rei Herodes, eis que alguns magos do Oriente chegaram a Jerusalém, perguntando: “Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo”» (v. 1-2). Ao contrário de Lucas, Mateus não narra o momento do nascimento de Jesus, mas apenas o menciona como um fato já acontecido, dando, porém, informações muito importantes de tempo e espaço: nasceu em Belém, no tempo do rei Herodes. A princípio, já é possível perceber a intenção do autor com essa informação: está surgindo uma alternativa de poder e realeza diferente do sistema vigente; há um deslocamento do centro para a periferia; começa uma descentralização, o que vem a indicar que o poder exercido até então na capital Jerusalém é um poder ilegítimo e, por isso, está desmoronando. É claro que é necessário o complemento da informação para termos clareza da oposição que o autor quer apresentar entre o poder centralizado em Jerusalém e o projeto alternativo que surge em Belém: «nasceu um rei para os judeus» (v. 2); esse dado indica que alguém estava reinando de maneira ilegítima, no caso, Herodes e o poder imperial em geral, de quem Herodes era representante. As indicações de tempo e espaço também servem para legitimar a historicidade do homem Jesus de Nazaré. Ora, os cristãos da comunidade de Mateus não tinham conhecido o homem Jesus e, por isso, poderiam questionar a sua existência. Com esses dados, o evangelista quer reforçar que Jesus foi um homem concreto, gente de carne e osso que nasceu e viveu em um período histórico determinado.

A outra grande novidade do relato, percebida ainda no primeiro versículo, está na peculiaridade dos personagens apresentados pelo autor: «alguns magos do Oriente» (v. 1). Ora, os magos (em grego: μάγοι – mágoi), eram estudiosos orientais, responsáveis pela interpretação dos sonhos e pela leitura dos fenômenos da natureza e dos astros. No mundo greco-romano, e sobretudo em Israel, os magos eram vistos como feiticeiros e charlatões, operadores da magia. Eram, na verdade, os sacerdotes de cultos pagãos da Pérsia e Babilônia; pertenciam a uma categoria condenada pelo judaísmo e pelo cristianismo das origens. De fato, dois episódios nos ajudam a perceber o quanto a magia era condenada na Bíblia: a saga de Balaão, no Antigo Testamento (Nm 22–24), e a tentativa de compra do dom do Espírito Santo pelo mago Simão, no Novo Testamento (At 8,9-24). Inclusive, por causa desse episódio, é do nome Simão que deriva o termo “simonia”, que significa a comercialização – compra e venda – de bens sagrados e espirituais. Portanto, os magos eram pessoas abomináveis à luz da religião de Israel e dos primeiros cristãos. E quando Mateus os apresenta como os primeiros adoradores de Jesus, em seu Evangelho, tem a intenção de denunciar todos os tipos de preconceitos e exclusivismos, evidenciando a necessidade da comunidade aceitar e promover a diversidade, mostrando que Jesus veio ao mundo como a manifestação definitiva de Deus ao mundo inteiro, revelando-se acessível a todas as pessoas.

Para encobrir a rejeição que estes personagens tão controversos poderiam sofrer, a tradição cristã dos primeiros séculos resolveu caricaturá-los, atribuindo-lhes características que o texto bíblico não cita, como a condição de reis. Ao invés de ajudar na compreensão do texto, esse tratamento real aos magos terminou distorcendo o sentido aplicado pelo evangelista. É importante reforçar que esses personagens são fruto da inteligência e criatividade teológica do evangelista, ou seja, os magos não são personagens reais, mas simbólicos. A intenção do evangelista e de sua comunidade ao apresentá-los era exatamente mostrar que também aos distantes e sem reputação Deus se revela, e são exatamente esses os que com mais sinceridade buscam o verdadeiro rosto de Deus, tão difícil de ser reconhecido na pessoa de uma frágil e pobre criança, como as elites religiosa e política de Jerusalém não foram capazes de reconhecer. Ainda sobre o revestimento dado pela tradição, é importante recordar que o texto bíblico não faz menção alguma ao número dos magos; não diz que eram três, como tradicionalmente eles são representados, com base apenas no número dos dons por eles oferecidos: ouro, incenso e mirra. Além do número três, sem fundamento no texto bíblico, a tradição também lhes deu nomes (Gaspar, Baltasar e Melchior) e meio de transporte (camelos). Por isso, como afirmamos no início, é necessário distanciar-se da imagem romântica do presépio para compreender bem o texto de Mateus.

Está mais do que clara a oposição: os magos vieram de longe para adorar o Deus verdadeiro. Foram a Jerusalém, mas lá não era possível encontrar o verdadeiro Deus porque a elite religiosa o tinha monopolizado e distorcido a sua imagem, inclusive determinando quem poderia entrar no templo, onde imaginavam que Deus estava confinado lá. Como gentios, os magos eram barrados pelas paredes do templo que separava os pagãos dos judeus piedosos. Com a pergunta «Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer?» (v. 2a), os magos afirmam que não reconhecem a autoridade de Herodes, ou seja, o consideram um rei ilegítimo, mesmo tendo ido ao seu encontro, inicialmente, mais por falta de conhecimento. Com a afirmação «nós vimos sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo» (v. 2b), eles desafiam também a elite religiosa, mostrando que as paredes do templo já não conseguem mais conter esse Deus que se revela em todo o universo e a todos os povos, como luz que brilha e ilumina a humanidade inteira. Portanto, os poderes político e religioso vigentes são desmascarados com o nascimento de Jesus, pois perdem totalmente o controle que imaginavam ter sobre Deus e seu agir libertador sobre o mundo. E os magos são os primeiros a constatarem esse fato.

Enquanto Herodes exercia o poder pela força e a violência, Jesus exercerá a sua autoridade pelo serviço; enquanto a relação com Deus, monopolizado pela elite religiosa, era mediada por uma casta sacerdotal corrompida e através de sacrifícios e ofertas, em Jesus é Deus quem se manifesta plenamente, sendo Ele mesmo quem se oferece à humanidade, ao invés de exigir sacrifícios e oferendas. Por isso, «o rei Herodes ficou perturbado, assim como toda Jerusalém» (v. 3), pois viam que um novo tempo estava surgindo, novas relações estavam sendo gestadas, uma sociedade alternativa estava nascendo, enfim, o Reino de Deus estava começando e, portanto, todos os reinos humanos deveriam desaparecer. Como sempre, a força dos pequenos gera desconforto nos grandes. Herodes significa o poder político da época, “toda Jerusalém” significa o poder religioso. Juntando os dois na mesma frase e com os mesmos sentimentos, o evangelista denuncia o conluio que havia entre eles. O verbo grego traduzido por “ficou perturbado” é o mesmo empregado para expressar a agitação das águas do mar (ταράσσω – tarásso). Trata-se, portanto, de uma agitação incontrolável, como ficam as elites quando percebem sinais de mudança nas bases, com a possibilidade de perda de poder e privilégios. Essa agitação se torna sinônimo de perigo, como eram perigosas as águas do mar para a mentalidade semita.

As preocupações de Herodes e de “toda Jerusalém”, compreendida como a elite política, religiosa e intelectual predominantes, ou seja, sacerdotes e escribas, leva-os a um medíocre pacto (vv. 4-6), o qual se repetirá posteriormente e levará Jesus à morte de cruz, com as mesmas motivações: o medo que as autoridades tinham de um autêntico “Rei dos Judeus” (Mt 27,11). Isso significa que exerciam poder de modo ilegítimo, em favor de seus próprios interesses, sem preocupação alguma com o bem do povo. Era um poder usurpado. A pedido de Herodes, a elite religiosa usa as Escrituras em favor de um projeto de morte, e isso serve de advertência para as comunidades cristãs de todos os tempos: a Palavra não pode ser instrumentalizada para interesses pessoais nem projetos de poder. Portanto, a reunião de Herodes com os sacerdotes e mestres da Lei prefigura o conluio que levará Jesus à morte, no final do Evangelho. No nascimento, o pacto é feito entre Herodes e toda Jerusalém; na paixão será entre Pilatos e o sinédrio, mas são as mesmas forças, com as mesmas práticas. Como último recurso, Herodes tenta a fraude e o suborno, exigindo que os magos retornem a ele quando encontrarem o menino (vv. 7-8).

Ajudados pela Escritura e pelo próprio Herodes, os magos foram a Belém e lá, de fato, encontraram o que estavam procurando: Jesus, Deus e luz que ilumina todos os povos, inclusive eles, operadores de práticas abomináveis aos olhos do judaísmo. A reação deles não poderia ser outra: «Ao verem de novo a estrela, os magos sentiram uma alegria muito grande» (v. 10). A luz de Deus, até então sufocada por uma religião ritualista e segregadora, agora ilumina o universo inteiro e o convida a alegrar-se com isso, pois significa o fim de todas as barreiras, o desmoronamento de todos os muros e sinais de separação. É neste versículo que aparece pela primeira vez a palavra alegria no Evangelho de Mateus. É importante recordar que, enquanto o “evangelho da infância” de Lucas (Lc 1–2) é um relato alegre do começo ao fim, inclusive as primeiras palavras que o anjo dirige a Maria são um convite á alegria – “alegra-te cheia de graça!” –, o relato da infância de Mateus (Mt 1–2) é totalmente dramático, marcado por angústia, dúvida e medo (Mt 1,19.13-13). Por isso, é muito relevante perceber a primeira alegria e, ainda mais, considerando que ela parte de pessoas sem credibilidade para os padrões religiosos de Israel.

Se os magos se alegraram por verem a estrela, a alegria deles deve ter aumentado ainda mais «Quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe» (v. 11a). Por serem pagãos e magos, eles não podiam adentrar além do pátio do templo reservado para os gentios e, portanto, não podiam contemplar nem adorar verdadeiramente a divindade nacional dos judeus. Agora, é tudo diferente: na casa, eles entram e vêem porque é o próprio Deus quem se deixa ver e conhecer em Jesus e na comunidade cristã, personificada em Maria, a mãe. Essa passagem é muito importante, pois em todo o primeiro capítulo de Mateus houve uma centralidade e importância dadas à figura de José. Nesta cena, ele não é mencionado, mas apenas Maria, como imagem da comunidade cristã, lugar privilegiado do encontro com Jesus e da verdadeira adoração. Certamente, Mateus teve uma intenção especial com esse detalhe: quis mostrar que Deus se deixa conhecer parcialmente na criação, representada pela estrela (vv. 2.9.10), de maneira mais clara ele se revela na Escritura (vv. 4-6), mas para fazer uma autêntica experiência com ele é necessário reunir-se em comunidade, personificada em Maria (v. 11).

Para compreender a atitude dos magos, é necessário recordar o que o texto diz, desde o início, sobre a intenção deles: «adorar o rei dos judeus» (v. 2). Para isso, eles tinham empreendido um longo caminho, inclusive errando a rota, pois foram primeiro a Jerusalém, mas lá não o encontraram, devido à estrutura rígida e decadente da religião oficial aliada ao poder político tirano de Herodes e do império romano. Ao contrário de Lucas, Mateus tem uma visão extremamente negativa sobre Jerusalém e o templo. Para Mateus, Jerusalém é sinônimo de trevas, é sinal de morte e ameaça para o reinado de Deus. Inclusive, pós a ressurreição, para encontrarem o Ressuscitado, os discípulos deverão retornar à Galileia (Mt 28,16-20). Por isso, somente deslocando-se para a periferia os magos puderam, de fato, experimentar o Deus que tanto buscavam. Aqui, está o ápice do contraste que o evangelista quer apresentar: o templo perdeu seu sentido, Deus não habita mais nele; é necessário retirar-se para a periferia, inserir-se na comunidade e, assim, adorar e experimentar a beleza desse Deus que quer apenas misericórdia e amor, e não mais sacrifícios.

Quando perceberam que encontraram aquele que tanto buscavam, os magos «ajoelharam-se diante dele e o adoraram» (v. 11). Essa atitude mostra que, finalmente, os magos se saciaram, encontraram sentido para suas vidas e buscas e, portanto, esvaziaram-se de si, oferecendo tudo o que tinham. Não ofereceram porque lhes fora exigido, como acontecia na religião do templo, mas porque sentiram-se confortados e correspondidos. Enquanto os poderes oficiais se uniam para matar, os magos, como figuras dos marginalizados, se prostram unidos para adorar. A adoração verdadeira, ou seja, o autêntico culto, não depende mais de um espaço específico delimitado pela religião; é feita na própria casa; a única exigência é que seja feita em «espírito e em verdade» (Jo 4,24). Ajoelhar-se em adoração será a atitude das mulheres e dos discípulos no primeiro encontro com o Ressuscitado (Mt 28,9.17). Com isso, o evangelista apresenta os magos como inauguradores do novo e autêntico culto, sendo modelos para o discipulado de Jesus.

Os presentes oferecidos pelos magos, ouro, incenso e mirra (v. 11b) são simbólicos e revelam, por um lado a identidade de Jesus e, por outro, a nova relação entre a humanidade e Deus. O ouro, revela que Jesus é rei enquanto o recebe, mas ao mesmo tempo diz que todas as nações podem participar do seu reino, enquanto foi oferecido por pagãos; assim, o privilégio de Israel como povo escolhido perde o seu sentido, pois a pertença ao Reino de Deus não é determinada por raça ou cultura, mas pela sinceridade de coração. O incenso representa a divindade de Jesus, ou seja, é o reconhecimento de que Ele é Deus, mas a humanidade não precisa mais dos sacerdotes do templo para se comunicar com Ele, pois qualquer pessoa e em qualquer lugar pode fazer isso. A mirra é o mais ambíguo dos três presentes: é, antes de tudo, o sinal da humanidade de Jesus, uma vez que era um perfume usado pelos judeus para embalsamar os cadáveres, como acontecerá com o corpo do próprio Jesus, quando morrer; porém, no Cântico dos Cânticos, em diversas passagens, a mirra é citada como o perfume da esposa amada (Ct 5,5.13) e, com muita probabilidade, Mateus quis dizer que a esposa amada de Deus deixou de ser Israel e passou a ser toda a humanidade.

Na conclusão do texto, encontramos uma afirmação muito significante para a comunidade cristã de todos os tempos: «Avisados em sonho para nãos voltarem a Herodes, os magos retornaram para sua terra seguindo outro caminho» (v. 12). Seguir outro caminho é a primeira atitude de quem faz um encontro autêntico com Jesus. Desse encontro, surge uma nova maneira de relacionar-se com Deus e com o próximo. Consequentemente, brota uma nova mentalidade que rejeita qualquer forma de poder que oprime e mata, inclusive amparado pela religião, como o complô de Herodes com os sacerdotes do templo. Para viver bem a nova relação com Deus é necessário desviar-se das antigas rotas e estruturas, como fizeram os magos, ao perceberem que Jerusalém só oferecia exploração e perigo. A experiência autêntica com Deus, portanto, provoca no ser humano a necessidade de percorrer novos caminhos, o que pode ser compreendido como uma nova maneira de viver, com novas atitudes parecidas com as de Jesus.

À guisa de conclusão, podemos nos questionar sobre quais caminhos que o Natal nos instiga a percorrer de agora em diante. Se serão os caminhos de sempre, ou seja, se continuarmos com as mesmas maneiras de pensar e compreender as coisas, principalmente a nossa relação com Deus e o próximo, é sinal de Jesus não nasceu em nós, ou seja, o Natal não aconteceu em nossas vidas. E Jesus se não nasceu em nós, não poderemos manifestá-lo ao próximo. Também é importante recordar o atual contexto eclesial: que o “outro caminho” seguido pelos magos estimule a reflexão sinodal em curso e que cada vez mais caminhos sejam abertos em nossas comunidades. Quanto mais disposição de “caminhar juntos” houver, mais a luz de Cristo iluminará o mundo.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

 

REFLEXÃO PARA O 3º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 4,12-23 (ANO A)

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